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Educação Física, De Corpo e Alma

 

"Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?"  (1CO 6:19)
 

O corpo é a casa do espírito. O que acontece ao corpo acontece ao nosso espírito, a nossa vida. Nossas práticas corporais são também, portanto, práticas espirituais, práticas culturais e intelectuais. O que fazemos com estas práticas é que definem o que realizaremos nesta construção da vida humana. Se grande é esta responsabilidade corpórea individual do ser humano maior ainda será a do educador profissional de Educação Física, o qual terá por sua responsabilidade, nos momentos de sua atividade pedagógica dentro do ambiente escolar, não somente a sua própria prática corpórea mas também a de todos os seus educandos, por vezes ávidos por sua instrução para lançarem-se em atividades físicas das mais diversas e com os mais diferentes propósitos e resultados.

A proposta pedagógica que o professor de Educação Física irá utilizar durante as suas aulas não pode estar desligada de seus propósitos. Se o objetivo é simplesmente cumprir metas baseadas nos PCNs em acordo com o projeto político-pedagógico da escola, mesmo que estes não vislumbrem atividades lúdicas, crítico-sociais e interativas, e não buscar além disto quaisquer outras alternativas então o professor poderá se limitar ao papel de facilitador e leal cumpridor do estabelecido e seguir em frente até a sua aposentadoria sem nada acrescentar à educação corporal. Porém se o objetivo está em lecionar uma Educação Física voltada à um propósito que busque resgatar seus reais valores, questionar o modelo vigente ao longo do último século e ainda em vigência em muitas escolas, trabalhar e socializar a cultura lúdica das crianças, apoiar-se nos aspectos relevantes de sua própria historicidade, na experiência cultural humana e na bagagem lúdica das próprias crianças então este professor tem muito trabalho pela frente e poderá render muitos frutos ao presente e ao futuro pedagógico da Educação Física.

Vago nos conta em seu texto "Maneiras de fazer Ed. Física na Escola" as transformações da Educação Física ao longo do século XX, iniciando em particular com a reforma do ensino de Minas Gerais em 1906. Corpos belos, saudáveis e ordeiros eram os objetivos das práticas de ensino corporal nesta época, uma política trópico-ariana voltada a construção de uma nova "raça" de brasileiros. Embutida de vários aspectos culturais de sua época procurava dar um tratamento diferenciado aos estudantes de sexo masculino e feminino, objetivando a manutenção de uma certa ordem pré-estabelecida. O tempo passou e o fascismo do início do século XX cedeu lugar à meritocracia neo-liberal da virada do milênio. Novamente a Educação Física serve de arma de manipulação ideológica ao promover em seu currículo o que interessa ao grupo dominante. Não mais o corpo belo e ordeiro, mas sim o corpo eficaz e eficiente. Atividades não voltadas ao caráter lúdico mas declaradamente reclinadas ao teor competitivo entre iguais, visando imbuir nas crianças o sentimento, e a aceitação pacífica, de que apenas os melhores e mais preparados poderão vencer na selva capitalista, não existem iguais.

Voltada para este pensamento a Educação Física contemporânea não pode enxergar-se a si mesma como reprodutora de um ideal vigente, mas como ativa participante da construção de um saber crítico destinado não à aceitação mas sim à contestação plausível, não caindo também para o descuidismo da crítica sem fundamentos, mas sobretudo se baseando em fatores socio-culturais norteadores a elaboração de uma prática pedagógica que consiga definir atividades corporais lúdicas e construtivas, estas sim a "Educação Física deve valorizar e incluir em seu programa de ensino" (VAGO - Educação Física na Escola, Pág. 53). Em nenhum momento a exclusão deve ser permitida nesta prática escolar. Colaborar com isto é não visualizar todo o potencial transformador das atividades corporais lúdicas e sobretudo é não reconhecer a devida importância da Educação Física dentro do corpo escolar.

O confronto entre a aceitação e a transformação tem início com o professor, passa pelo corpo escolar e desemboca nos alunos através da metodologia estipulada e praticada. O professor, mesmo inconscientemente, faz a opção entre um trabalho voltado para a qualidade exigida pelo "deus-mercado", a qualidade total e a uma outra qualidade, mais humana, voltada para a construção sadia do corpo e crescimento do espírito do aluno em relação a sua vida social, esta qualidade social que não consegue entrar em um cego acordo com as políticas meritocráticas do capital e coloca-se como alternativa única àqueles que não podem, por sua capacitação humana, ficarem omissos ao que acontece hoje no mundo educacional. Uma vez definida a postura do professor entra em cena a escola onde este leciona, será que sua proposta tão cheia de idéias e ideais poderá ser facilmente implementada dentro do corpo escolar ou este professor encontrará então um barreira intransponível que o fará se redimir de sua busca pela qualidade humana e finalmente render-se ao que o mercado pede. Seria possível lutar dentro da escola, pela escola e pela educação e ao mesmo tempo contra muitas das idéias que dirigem a escola e fazer valer sua opção humana? Seria possível ao professor concordar com uma projeto político-pedagógico diferente de sua prática pedagógica, mesmo que teórica? Qual questão se faz mais importante: fazer valer a ética ideológica da luta pela qualidade social e humana ou garantir uma certa "estabilidade" e um ganho financeiro mensal em uma escola submetendo-se à suas regras em nenhum questionamento? Ou ainda, será que deveriam os professores de Educação Física buscar apenas as escolas que estejam em acordo com seu pensamento e ignorar as demais?

Passado este confronto professor x escola, idéias próprias x regras impostas (se é que é possível superar em algum momento este confronto) temos por fim a prática de aula, a práxis da Educação Física. Neste momento o professor tem a sua frente seu material mais precioso, o aluno. Agora ele pode realizar tudo ao que se propôs, e se tiver sucesso em sua empreitada estará construindo um novo homem para um novo mundo idealizado por tantos e ainda por ser idealizado por seu próprio aluno ou estará moldando, de acordo com os moldes que recebeu de seus superiores, uma nova peça para a engrenagem que mantém o status-quo. Em ambos os casos seu sucesso dependerá de sua capacidade pedagógica. Esperamos que esta capacidade seja utilizada para o primeiro caso, o da construção humana, muito além dos paradigmas curriculares da "Vida Cidadã" estabelecida pela CEB/CNE (VAGO & SOUSA – A E.F. e as D.C.N., pág. "2").

O ser humano que aprende Educação Física aprende cultura corporal, aprende teoria e prática, muitas vezes estas duas podem se confundir em uma determinada atividade física, mas nenhuma atividade dentro da aula de Educação Física deve estar separando cultura de corporeidade, crítica de ludicidade, atividade corporal de atividade humana, corpo de espírito, o fazer do saber, expressão e cultura. Poderemos assim, colocando em conjunto e de mãos dadas a Educação Física com as demais disciplinas da escola participar no crescimento do aluno como um novo homem, mais criativo, mais lúdico, verdadeiramente participante da maravilhosa dádiva do viver, mais social, mais espiritual e, sobretudo, mais humano.

Eduardo Rodrigues de Moraes - 3o.E - Pedagogia - UFPR - 2001

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